"Te encontro às dez."
Eu estava atrasada. Eu sempre estava. Mas hoje não, hoje não podia perdê-lo. Como fez falta o sorriso largo nos meus dias vazios, vazios a não mais poder. O passo apertado, cada vez mais apertado. Os saltos dos sapatos entoando o canto apressado da saudade.
Enfim.
E os braços envolveram-me de novo naquele abraço, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que um dia foi meu reino e agora era só um amontoado de escombros. Quando afastei o rosto e mergulhei no castanho fundo dos olhos dele, não pude evitar a maré alta dos meus.
As horas escorriam enquanto segurávamos as mãos, separadas apenas quando se deu a chegada do primeiro copo. O calor que descia pela garganta, corando as faces, fez-me esboçar um afago. Logo os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar.
Daquele momento em diante a memória só me permitiu guardar uns poucos instantes de luz: a porta, o corpo que se despia apressado, os sons, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio com a cumplicidade dos olhares. Antes de entregar-se ele ainda calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."
Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Que faria de mim? Ele dormia um sono solto, e eu quase explodia em agonias inimagináveis.
Então veio o travesseiro, firme, contra o rosto que eu queria tão bem. Ele resistiu, assustado, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi então a lividez que resultou de meu desespero.
Talhei, convicta, a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.
Antes do fim.
Postado por Érika C. às 21:43
Marcadores: Drama Queen

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