Não quero pensar a vida como se pensa um sonho. Quero vê-la simples e isso ser tudo.

Há qualquer coisa no existir que muito me amedronta. Talvez seja a impressão de que ainda não comecei a fazê-lo.
Existir é tarefa muito complicada ao meu coração.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Redenção

Mais dois passos e seria o infinito. A imensidão vazia do meu corpo contra o universo do seu. No princípio um contato rápido, carregado de medo. Depois a entrega colhida na ponta dos pés.
O meu querer não é mais que uma devoção sem esperanças. É pôr os barcos n'água sabendo de seu naufrágio. É guardar-lhe o sorriso em lembrança e isso ser tudo.

Que importa que houvesse sol quando deixei o seu abraço? Hoje você veio na chuva.

"No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação."
F. Pessoa

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Meu amor, minha vida sacramentada
segmentada em seus suspiros fundos
em seus sorrisos, mundos.

domingo, 16 de novembro de 2008

Mutilado.

E os braços envolveram-me de novo, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que fora meu reino e agora eram escombros. Quando mergulhei no castanho fundo dos seus olhos não pude evitar a maré alta dos meus.

As horas escorriam. O calor que descia pela garganta fez-me esboçar um afago. Os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar. Daquele momento em diante só soube guardar uns poucos instantes de luz: o corpo que se despia apressado, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio, e antes de entregar-se ele calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."

Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Ele em um sono solto, e eu explodia em agonias inimagináveis. Então veio o travesseiro firme contra o rosto que quis tão bem. Ele resistiu, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi a lividez que resultou de meu desespero. Talhei convicta a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.

domingo, 9 de novembro de 2008

Antes do fim.

"Te encontro às dez."

Eu estava atrasada. Eu sempre estava. Mas hoje não, hoje não podia perdê-lo. Como fez falta o sorriso largo nos meus dias vazios, vazios a não mais poder. O passo apertado, cada vez mais apertado. Os saltos dos sapatos entoando o canto apressado da saudade.

Enfim.

E os braços envolveram-me de novo naquele abraço, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que um dia foi meu reino e agora era só um amontoado de escombros. Quando afastei o rosto e mergulhei no castanho fundo dos olhos dele, não pude evitar a maré alta dos meus.

As horas escorriam enquanto segurávamos as mãos, separadas apenas quando se deu a chegada do primeiro copo. O calor que descia pela garganta, corando as faces, fez-me esboçar um afago. Logo os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar.
Daquele momento em diante a memória só me permitiu guardar uns poucos instantes de luz: a porta, o corpo que se despia apressado, os sons, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio com a cumplicidade dos olhares. Antes de entregar-se ele ainda calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."

Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Que faria de mim? Ele dormia um sono solto, e eu quase explodia em agonias inimagináveis.

Então veio o travesseiro, firme, contra o rosto que eu queria tão bem. Ele resistiu, assustado, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi então a lividez que resultou de meu desespero.
Talhei, convicta, a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.

"Pode ser a eternidade má..."


E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.

Afogamento.

Acordei mergulhada em mim. As sensações cobrindo-me até o pescoço. Os horrores, os odores da tristeza vindo nariz adentro. O rosto assustado de quem nunca soube viver sem sobressaltos. Os cabelos dançando na frialdade estática do suor.

Os olhos seguiam abertos, pétreos, enquanto executava-se, alheia à minha vontade, a revolta mecânica dos braços. Colher, arrancar, tomar para si, atirar longe, livrar-se, partir, rasgar. Partir e rasgar, acima de qualquer outra coisa. Partir as esperanças, esmiuçá-las ao máximo. Rasgar o peito em agonias inexprimíveis, em fantasias vãs, em realidades cruas, cruéis. Rasgar-se enfim, sem necessidade de remendo, sem desejo de reparação.

E a mão, por fim, erguida num pedido de socorro.
O último suspiro, e afundo. Os olhos frios, a boca entreaberta, os sentimentos inundando definitivamente meus pulmões.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Eu lhe peço uma certeza.

Ele mostrou suas feridas de guerra. Falou dos seus espólios, da gana da vitória. Ele tocou minhas marcas e soube, soube sim, que me tinha.

Ele deixou que fosse eu a que busca. Permitiu que eu lhe conhecesse o suor tão raro, o gemido rouco, o alívio da sua voz derramando-se em meus ouvidos.
Não foi em sua boca que perdi a razão. Não, então onde? As mãos que me enlaçavam a cintura com certeza, as palavras sem freio... Não, ainda não.

Eu gosto quando faz assim.

E meus quadris desenhando no ar a vontade de tê-lo sempre. E as desculpas para o toque. E a pele macia, os pêlos ásperos, e o cheiro invadindo meus sentidos, e o gosto... Não, ainda não.

Mas ele me fez chorar.

É assim que me toma?



"Não me peça que lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente
Quer dizer, a vida é muito pior"


sábado, 1 de novembro de 2008

 
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