Não quero pensar a vida como se pensa um sonho. Quero vê-la simples e isso ser tudo.
Há qualquer coisa no existir que muito me amedronta. Talvez seja a impressão de que ainda não comecei a fazê-lo.
Existir é tarefa muito complicada ao meu coração.
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Redenção
Mais dois passos e seria o infinito. A imensidão vazia do meu corpo contra o universo do seu. No princípio um contato rápido, carregado de medo. Depois a entrega colhida na ponta dos pés.
O meu querer não é mais que uma devoção sem esperanças. É pôr os barcos n'água sabendo de seu naufrágio. É guardar-lhe o sorriso em lembrança e isso ser tudo.
Que importa que houvesse sol quando deixei o seu abraço? Hoje você veio na chuva.
"No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação."
F. Pessoa
terça-feira, 18 de novembro de 2008
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Meu amor, minha vida sacramentada
segmentada em seus suspiros fundos
em seus sorrisos, mundos.
domingo, 16 de novembro de 2008
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Mutilado.
E os braços envolveram-me de novo, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que fora meu reino e agora eram escombros. Quando mergulhei no castanho fundo dos seus olhos não pude evitar a maré alta dos meus.
As horas escorriam. O calor que descia pela garganta fez-me esboçar um afago. Os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar. Daquele momento em diante só soube guardar uns poucos instantes de luz: o corpo que se despia apressado, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio, e antes de entregar-se ele calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."
Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Ele em um sono solto, e eu explodia em agonias inimagináveis. Então veio o travesseiro firme contra o rosto que quis tão bem. Ele resistiu, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi a lividez que resultou de meu desespero. Talhei convicta a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.
domingo, 9 de novembro de 2008
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Antes do fim.
"Te encontro às dez."
Eu estava atrasada. Eu sempre estava. Mas hoje não, hoje não podia perdê-lo. Como fez falta o sorriso largo nos meus dias vazios, vazios a não mais poder. O passo apertado, cada vez mais apertado. Os saltos dos sapatos entoando o canto apressado da saudade.
Enfim.
E os braços envolveram-me de novo naquele abraço, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que um dia foi meu reino e agora era só um amontoado de escombros. Quando afastei o rosto e mergulhei no castanho fundo dos olhos dele, não pude evitar a maré alta dos meus.
As horas escorriam enquanto segurávamos as mãos, separadas apenas quando se deu a chegada do primeiro copo. O calor que descia pela garganta, corando as faces, fez-me esboçar um afago. Logo os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar.
Daquele momento em diante a memória só me permitiu guardar uns poucos instantes de luz: a porta, o corpo que se despia apressado, os sons, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio com a cumplicidade dos olhares. Antes de entregar-se ele ainda calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."
Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Que faria de mim? Ele dormia um sono solto, e eu quase explodia em agonias inimagináveis.
Então veio o travesseiro, firme, contra o rosto que eu queria tão bem. Ele resistiu, assustado, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi então a lividez que resultou de meu desespero.
Talhei, convicta, a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.
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Afogamento.
Acordei mergulhada em mim. As sensações cobrindo-me até o pescoço. Os horrores, os odores da tristeza vindo nariz adentro. O rosto assustado de quem nunca soube viver sem sobressaltos. Os cabelos dançando na frialdade estática do suor.
Os olhos seguiam abertos, pétreos, enquanto executava-se, alheia à minha vontade, a revolta mecânica dos braços. Colher, arrancar, tomar para si, atirar longe, livrar-se, partir, rasgar. Partir e rasgar, acima de qualquer outra coisa. Partir as esperanças, esmiuçá-las ao máximo. Rasgar o peito em agonias inexprimíveis, em fantasias vãs, em realidades cruas, cruéis. Rasgar-se enfim, sem necessidade de remendo, sem desejo de reparação.
E a mão, por fim, erguida num pedido de socorro.
O último suspiro, e afundo. Os olhos frios, a boca entreaberta, os sentimentos inundando definitivamente meus pulmões.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
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Eu lhe peço uma certeza.
Ele mostrou suas feridas de guerra. Falou dos seus espólios, da gana da vitória. Ele tocou minhas marcas e soube, soube sim, que me tinha.
Ele deixou que fosse eu a que busca. Permitiu que eu lhe conhecesse o suor tão raro, o gemido rouco, o alívio da sua voz derramando-se em meus ouvidos.
Não foi em sua boca que perdi a razão. Não, então onde? As mãos que me enlaçavam a cintura com certeza, as palavras sem freio... Não, ainda não.
Eu gosto quando faz assim.
E meus quadris desenhando no ar a vontade de tê-lo sempre. E as desculpas para o toque. E a pele macia, os pêlos ásperos, e o cheiro invadindo meus sentidos, e o gosto... Não, ainda não.
Mas ele me fez chorar.
É assim que me toma?
"Não me peça que lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente
Quer dizer, a vida é muito pior"
sábado, 1 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 01:22 1 trovoadas.
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Deumfôlegosó.
Estou aflita, mas estou em paz. Que é essa paz estranha? Eu sinto o coração pesando. Não como se fosse demais, mas como se eu sentisse tanto que o próprio coração acusasse sua existência, entende?
Não entende.
Quem poderia?
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
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Uma tarde em Minas Gerais.
Um sol sufocante esquenta o ladrilho que me queima os pés descalços. Há em mim uma qualquer necessidade de escrever seu nome. Escrevê-lo com todas as letras, milhares de vezes. Chamar-lhe aos berros, sem esperar que me atenda. Necessito fazê-lo para não enlouquecer.
Já se passou tanto tempo, e sua lembrança ainda traz-me lágrimas que nunca soube derramar. Elas vão se acumulando, e prevejo que hão de rebentar-me o coração.
Busco em outros olhos os seus. Embalde, enredo-me em amores inventados. Então, quando o torpor se dissipa na névoa da distância, é você quem permanece.
Você, com o sorriso desafiador, com o cigarro em punho, com o olhar oblíquo que não se compadeceu do meu.
Suspeito que não serei capaz de esquecer-lhe a pele suave, ou o suor que desprendia um odor doce e me fazia aturdida.
Partiremos juntos. Você para longe dos meus olhos, definitivamente. Eu, para voltar às suas lembranças.
Nunca me libertará?
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Postado por Érika C. às 06:31 1 trovoadas.
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Vinicius e a boa poesia.
Ternura
Vinicius de Moraes
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
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Impublicável IV
Acho que de 2005 também.
À minha criatura
Deixa-me entregue à esta criatura
Que no silêncio vem, e me enlouquece
E se sofre, e eu bem sei o que padece
Não permite que lhe roubem a doçura
E quando em amargo riso se esconde
Protegendo a deformada consciência
Como que pedindo amor, e não clemência
Àquele que faz pálida sua fronte
Faz então do frágil brio, dourada chama
Que não abrasa, porém, o torpe peito
Pelo qual ainda inutilmente clama
Porém no último suspiro sobre o leito
Verás então que a criatura frágil e profana
Não era mais que a crua face do meu desejo
terça-feira, 20 de maio de 2008
Postado por Érika C. às 02:13 0 trovoadas.
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Impublicável I
Aleijão
Perdida, assim, devaneio,
Insone, os dedos crispados
Por sobre o rosto gelado,
A ocultar meus anseios.
Dorida, e quantos receios
Invadem meu seio inflamado!
Sustento um olhar alquebrado
A esquadrinhar rosto alheio
Sinto, e o sentir me consome
A verve e a sanidade.
Lanço-me - e com que fome! -
À busca de alguma verdade.
E encontro, José, em teu nome
A cura da indignidade.
06 de junho de 2006
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Sonhos em preto e branco.
Um projeto de livro, há muito engavetado pela total falta de talento e inspiração. Um dia, quem sabe, eu cometa a insensatez de terminá-lo.
Sonhos em Preto e Branco
Para aquele que me ensinou que os sonhos não têm cor.
Arthur
Capítulo I
Era de mente pequena, limitada, mesmo previsível, a minha Nina. Contava então vinte e um anos, e nada tinha aprendido na vida que valesse o esforço e dinheiro que foram nela investidos. Fazia sempre as piores escolhas, e tinha a consciência de que o futuro não reservava-lhe grande coisa. Que me fazia amá-la, então? Caterina não era pessoa que se pudesse amar. Ao contrário; escondia sua frágil condição porquanto lhe fosse possível, e à custa de muita humilhação pôde manter um ou outro namorado e mais meia dúzia de amizades.
Não que fosse feia, a pobrezinha. Tinha mesmo um belo par de olhos negros, era esguia, de longos cabelos castanhos, muito perfumados. Possuía, ainda, um colo fabuloso, e os decotes permitiam entrever seios alvos e firmes. Mantinha o costume – raríssimo entre mulheres – de falar baixo e pouco, e seu hálito cheirava a leite morno.
Ainda assim, dificilmente era notada. Apenas eu conseguia manter os olhos sobre ela. Explico: Caterina era, aos sensíveis, visão das mais perturbadoras; quando vestida em negro, parecia mergulhada em luto; se, ao contrário, trajava branco, julgavam-na doente.
Não saberei dizer quando comecei a amá-la. Em verdade, odiei-a assim que a vi. Ela tinha ciência do meu desprezo, mas não parecia ofender-se. Tratava-me, aliás, com a maior das delicadezas. Certo dia, acordei de tal modo irritadiço que, ao encontrá-la, perguntei muito grosseiramente se não incomodava-se por ser de todo inútil. Respondeu-me sinceramente que já se havia habituado.
Morava com a mãe, Dona Nívea, num sobrado de dois pavimentos, a uns poucos metros da república estudantil para onde me mudara. Mesmo com tamanha proximidade só nos encontramos na Faculdade de Direito, e era tão silenciosa que não a notei antes de decorridas as primeiras duas semanas de aula. Conhecemo-nos num dia chuvoso; eu chegara atrasado e sentei-me no primeiro lugar vago que encontrei. Caterina estava ao meu lado; os cabelos e as vestes denunciavam que fora surpreendida pela chuva. Eu tinha lenços, mas não ofereci. Assisti com certo prazer as gotas deslizarem pelo nariz delicado. Quando estavam a ponto de cair, ela as recolhia com a ponta dos dedos e deixava que o tecido da saia absorvesse a água. Naquele dia, voltando pra casa, a vi passar na calçada oposta. Espirrou assim que pousei os olhos nela. Enfiei a chave na fechadura e entrei, sorrindo.
Capítulo II
Os dias seguintes ao nosso encontro não foram em nada diferentes do habitual. No entanto, passei a observá-la. Ela, absorta em qualquer dos pensamentos estúpidos que tivesse, não notava meu olhar. Pude, pois, perceber-lhe largamente os costumes, os modos, a forma de mover-se e olhar em torno. Uma coisa, apenas, não pude conhecer: o sorriso. Caterina não sorria. Era maçante para mim manter os olhos sobre ela, que conservava sempre a mesma parva expressão. Passado um mês, fartei-me de observá-la.
Poderia ter-me livrado do fardo que se tornou o meu amor pela pequena imbecil, não fosse por um único e fatídico dia: o dia em que Nina passou a existir aos olhos de outro.
Capítulo III
Era manhã e fazia frio, muito frio. Caterina parecia estranhamente irrequieta, tanto que chamou minha atenção. Gastei alguns minutos observando-lhe as mãos. Apertava-as incessantemente contra os joelhos, causando-me a deliciosa impressão de que as unhas estariam, possivelmente, machucando a pele clara e delicada. Não pude confirmar minhas suspeitas, já que a saia ocultava-lhe o corpo desde a cintura até a panturrilha, mas assim mesmo sorri levemente. Segui com os olhos nela; estava decididamente diferente. Os olhinhos apreensivos e muito bem pintados pareciam prontos para verter lágrimas, a boca era atacada ferozmente pelos dentinhos brancos, e podia-se vislumbrar um certo rubor nas bochechas sempre tão alvas.
Percebi que ela havia se demorado mais em frente ao espelho, antes da aula. Nunca a vira tão bonita: o negro das vestes contrastava com sua habitual palidez; o sobretudo bem cortado não negava ao observador a visão da delicada cintura; as botas uniam-se à saia no sentido de ocultar totalmente a visão das brancas pernas de Caterina. Pela primeira vez, senti-me atraído por ela. Tive pensamentos repulsivos quando a vi erguer-se e calçar as luvas. Um desejo violento e irrefreável fez com que eu a seguisse pelos corredores. A diabinha andava em passos pequeninos e rápidos, quase correndo. Quando alcancei a rua, a havia perdido. O sol bateu-me em cheio no rosto, arrancando-me do transe doentio. Ainda questionando-me acerca do que acabara de sentir, rumei para casa. Estava já quase recuperado da estranha impressão quando, num golpe de azar, a avistei. Fui assaltado por uma inquietude sem tamanho: Caterina sorria. Sorria largamente, e para alguém. Não saberei dizer o que me aconteceu para ficar de tal forma transtornado, mas a visão do seu sorriso quase levou-me ao chão. Naquele instante percebi que nunca tinha lhe ouvido a voz. Com o coração aos pulos, caminhei em sua direção e balbuciei um “bom-dia”. Ela, surpreendida pela minha presença, recolheu o sorriso rapidamente. Respondeu-me no instante seguinte; tinha uma voz rouca e arrastada. Pude então pousar os olhos sobre a misteriosa pessoa que a fizera rir e, como esperado, vi uma figura masculina. Ele conseguia ser mais lúgubre que a própria Caterina; igualmente vestido de negro, trajava uma espécie de capa que lhe cobria os ombros e ocultaria todo o corpo, não estivesse ele apoiando o braço numa bengala de madeira escura e castão prateado. Graças à posição em que se encontrava, pude observar-lhe a magreza e as mãos finas. No entanto, não demorei meus olhos sobre ele; quanto mais o observava, mais sentia que era visto com o mesmo interesse. Dei as costas a ambos, sem qualquer explicação ou despedida, e parti.
Capítulo IV
No dia seguinte, quando Caterina entrou na sala com seu passinho miúdo, não senti nada. Meu coração ignorava completamente o dia anterior, e permanecia absolutamente silencioso. Poderia eu ter seguido sem maiores inquietações, não tivesse a estúpida garota passado a me cumprimentar todas as manhãs. Em dada ocasião, sentada ao meu lado, percebeu minha dificuldade em determinada matéria; ao levantar-se para sair, entregou-me uma folha manuscrita e se dispôs a ajudar-me, caso fosse preciso. Tive ímpetos de surrá-la e dizer-lhe que não necessitava da ajuda de um ser tão desprezível. Contrariando minhas vontades, agradeci. Ela sorriu, deu-me as costas e desapareceu porta afora.
Apanhei a folha e estava pronto a rasgá-la em pedaços, mas acabei lendo. Surpreso, percebi que não eram de todo inúteis as anotações. Após a segunda leitura, havia sanado quase todas as dúvidas.
Decidi aproveitar-me de sua boa vontade e, no dia seguinte, pedi à Caterina que me explicasse mais detalhadamente o assunto. Ela não se opôs, e após a aula demorou-se por alguns minutos respondendo minhas perguntas. Percebi que, apesar de estúpida, a garota me poderia ser útil. Embora soubesse já a resposta, perguntei onde vivia. Fingindo surpresa, comentei que estávamos muito próximos, e pedi-lhe que estudasse comigo diariamente. Ela assentiu.
No dia seguinte, após a aula, fomos até o sobrado onde Caterina morava. Convidado para o almoço por uma sorridente Dona Nívea, aceitei sem dificuldades. Enquanto comia, percebi que Caterina não guardava para a mãe um comportamento diferente do que eu já conhecia: à mesa, continuava calada e séria. Comeu pouco e devagar, embora a refeição fosse deliciosa. A mãe, aparentemente acostumada à austeridade da filha e sedenta de novidades, falava sem parar e sorria muito. Eu retribuía a hospitalidade como podia, e começava mesmo a me sentir mal por minha mesquinhez. Após o almoço, fomos para a sacada, de onde se via um jardim muito verde e florido. Caterina mostrava-se muito competente em explicar-me qualquer assunto, de forma que passei a vê-la quase que com simpatia.
Passados dois meses eu já era íntimo da família. Dona Nívea tratava-me tão bem que desenvolvi por ela uma afeição genuína. No entanto, meus sentimentos por Caterina eram confusos: não lhe tinha repulsa, mas não conseguia nutrir por ela qualquer afeto. Ela, ao contrário, passou a sorrir-me com freqüência. Não tagarelava nem tampouco agia como a maioria das mulheres apaixonadas, mas eu tinha comigo a certeza de que era amado.
Suspeito que ela não se sentia digna de mim, e nesse ponto concordávamos silenciosamente. A verdade é que tinha, ela mesma, vergonha de sua existência. Era uma criatura inútil, e tinha total consciência disso. O que seria dela no mundo? Que faria de si, estando sozinha? Era tão frágil a ponto de beirar o patético, e quando em vez tinha um vislumbre de sua fraqueza, e chorava.
Sim, eu já a havia surpreendido aos prantos. Voltei ao sobrado numa noite cálida: havia esquecido um caderno, e só dei por falta dele ao anoitecer. Dona Nívea recebeu-me sorridente como sempre, e disse que entrasse e procurasse Caterina em seu quarto, que ela deveria estar com o caderno. Sentia-me tão à vontade que, vendo a porta apenas encostada, abri sem bater. Caterina estava deitada na cama, de costas para a porta. Parecia morta, enfiada num vestidinho branco e fino. Observei-a silenciosamente, adivinhando-lhe o corpo macio por sob a roupa. Ela voltou-se e me viu. Levou as mãos à face, interrompendo o curso das lágrimas. Não perguntei o que lhe havia acontecido, nem ela disse-me qualquer coisa. Ela ergueu-se, o semblante doentio, e abriu uma gaveta de onde tirou o objeto que me trouxera até ali. Descalça, caminhou até a porta e pousou-me o caderno nas mãos. Com a mão livre, enlacei-a pela cintura e a beijei violentamente. Ela não reagiu, parecia mesmo morta em meus braços. Em minutos já havia me desvencilhado dela e alcançava a rua. O hálito morno de Caterina e sua inércia me trouxeram sonhos confusos naquela noite.
Capítulo V
Desde então não a reconheci mais. Seus olhos tornaram-se baços e fundos; seus movimentos, frouxos. Estranhamente, isso despertava em mim tamanha lascívia que não conseguia mais concentrar-me nas aulas. A situação piorava quando, após o almoço, ficávamos por intermináveis minutos repassando o assunto dado. Eu me tornava cada vez mais silencioso, e ela notava a mudança.
Não suportei mais que dois dias sem tocá-la novamente. Chovia e já passava da hora de ir, mas eu permanecia. Caterina não fazia menção de mandar-me embora; apenas observava a chuva em silêncio, as mãos estendidas recebendo as gotas que caíam, incessantes. Sem dizer palavra, tomei-lhe as mãos e as beijei. Ela as recolheu, corando encantadoramente. Sem qualquer licença, a tomei nos braços; dessa vez retribuiu-me o beijo, e de forma tão febril que eu a teria possuído ali mesmo, não tivesse ouvido ao longe os passos da mãe. Separamo-nos rapidamente, ela correu até a porta e a abriu; saí em silêncio.
Capítulo VI
No dia seguinte não houve aula, mas mesmo assim acordei cedo e fui ao encontro dela. Embalde, toquei a campainha insistentemente. Não obtive resposta. Sentei-me na calçada tentando controlar o impulso violento que me impedira de dormir.
Passou-se um quarto de hora até que eu pudesse acalmar-me. Decidi que era melhor esperar em casa e tentar encontrá-la mais tarde. Levantei-me e comecei a fazer o caminho de volta quando avistei um carro aproximar-se. O carro parou em frente ao sobrado e dele vi sair a figura magra e estranha para quem minha Nina sorrira um dia. Sem notar a minha presença, contornou o veículo e estendeu a mão ossuda para o passageiro: era Caterina.
Saiu do carro em silêncio e com os olhos baixos. Ele a tomou num abraço frouxo e disse-lhe qualquer coisa que não pude ouvir. Ela ergueu os olhos e sorriu, fazendo com que meu sangue fervesse. Quis matá-los, ambos, naquele momento. Ele despediu-se, entrou no carro e partiu. Caterina pegou a chave na bolsa e caminhou até o portão.
Ela girou a chave sem notar que eu a observava. Antes que entrasse, gritei-lhe o nome; só então ela me viu. Em segundos venci os poucos metros que nos separavam e a beijei com raiva. Disse-lhe que viera procurá-la e não havia encontrado ninguém. Soube então que sua mãe estava no hospital e não passava bem; o homem (chamava-se Túlio) fez a gentileza de trazê-la de volta, para que descansasse.
Contou-me isso e calou em seguida. Tomei-lhe pela mão e entrei, sem convite. Eu mesmo tranquei o portão e segui com ela jardim adentro. Ela nada dizia, apenas deixava-se guiar. Apertei o corpinho pequeno contra o meu e a arrastei até a sacada.
Sem qualquer cuidado, voltei a beijá-la. Ela recebia meus lábios, trêmula. Naquela manhã, em meio a negativas incontáveis, ela foi minha.
Ana Clara
Capítulo VII
Naquela tarde, quando fui ao encontro de Caterina, não a encontrei. Em verdade, encontrei-lhe o corpo, a casca. A essência se havia perdido em alguma curva de um caminho que não trilhamos juntas. Cá mantinha os punhos cerrados, como se guardasse nas mãos qualquer coisa tão valiosa que não pudesse sequer correr o risco de deixar escapar.
Conversamos, como sempre. Ou seria como nunca? Caterina esteve tão alheia que suas respostas pareciam apenas ecos de um pedido de socorro. Do que precisava salvá-la não soube descobrir.
Perguntei sobre Dona Nívea, e tive respostas cruas e objetivas. Não me surpreenderam, já que Caterina não nutria qualquer amor por ela. Era assim desde que a conheci, aos 13 anos. De início, quando estava próxima da mãe, chorava copiosamente. Eu estranharia as lágrimas, se não ficasse ainda mais surpresa com a reação de Dona Nívea: a senhora mantinha-se sorridente, por mais que a filha soluçasse.
Naturalmente, o comportamento de Dona Nívea me assustava. Em contrapartida, Caterina era uma figura tão rara que despertava minha curiosidade. Um dia, ao encontrá-la sozinha sentada à calçada, resolvi aproximar-me. Seus movimentos eram tão contidos que às vezes sequer parecia estar respirando. Falei por poucos minutos, e ela respondeu mecanicamente a tudo, como se lhe houvessem ensinado o que dizer antes mesmo que eu concebesse a pergunta. Já tinha desistido do meu propósito inicial e preparava-me para a despedida definitiva quando Caterina voltou os olhos na minha direção e sorriu. O sorriso dela era, de certa forma, assustador. Na verdade, o sorriso em si era bonito, mas os olhos mantinham-se fundos e vazios. Com certa dificuldade, sorri em retorno. Acabamos por nos encontrar outras vezes, na rua (Caterina morava na casa ao lado da minha), e nos cumprimentávamos normalmente. Numa quarta-feira fria meu pai bateu à porta do quarto que eu dividia com minha irmã e anunciou: a vizinha estava na sala, à minha espera.
Não bastasse a surpresa que experimentei ao imaginar Caterina sentada no sofá, assustando minha mãe com seus olhinhos frios, quando assomei à porta da sala encontrei não Caterina, mas sua mãe, Dona Nívea. Nos vira juntas e viera convidar-me para a festa de aniversário da filha. Mamãe achou muito delicado o convite e tratou de aceitá-lo por mim. No dia e horário combinados toquei a campainha afixada ao muro que circundava todo o sobrado onde Caterina vivia. A aniversariante ofertou-me um de seus sorrisos assustadores quando lhe entreguei o presente, e cobriu-me de atenções durante toda a festa. Aparentemente, eu era a única pessoa ali presente por quem ela nutria algum afeto.
Capítulo VIII
Embora Caterina me tivesse causado certo medo durante os primeiros meses em que convivemos, passado esse estranhamento inicial acabamos por nos tornar amigas inseparáveis. Ela cobria-me de atenções, e eu gostava de ser mimada. Era como se, para ela, eu fosse uma espécie de ícone, algo digno de adoração. Tudo o que dissesse era recebido por ela com surpresa e exclamações. Chegava a ser engraçado como Caterina reagia às coisas mais pueris. Como no dia em que lhe contei que havia beijado um garoto da minha classe; as palavras lhe fugiram de tal forma que a única coisa que ela conseguiu fazer para exprimir sua surpresa foi tossir.
Mas, como já disse, não foi essa Caterina estranha e boba que encontrei naquela tarde. Depois de algumas tentativas frustradas de arrancar-lhe uma resposta definitiva sobre o que lhe estava incomodando, desisti das especulações e aceitei o convite para pernoitar em sua casa. Eu já não morava na construção vizinha, então tive que telefonar para minha mãe, que mantinha-me sob constante fiscalização. Não surpreendi-me ao ouvir que ela traria pessoalmente algumas roupas “para que eu não incomodasse a menina”. Quando chegou, minha mãe foi recebida por uma Caterina ainda mais alheia. Ao saber do estado de Dona Nívea, julgou que fosse essa a razão para o estranho comportamento da minha amiga, e disse-me que fazia muito bem em ficar ao lado dela.
Assim que ficamos novamente a sós, Cá e eu fomos em busca de alguma bebida que nos esquentasse o sangue e os ânimos. Já estávamos na segunda garrafa de vinho quando a campainha soou novamente. Estranhei o adiantado da hora (passavam das 23) e, ainda mais, o fato de Caterina receber visitas em casa. Desde que nos conhecemos eu era a única pessoa que vinha ao sobrado sem um motivo especial. Caterina levantou-se, deixando-me sentada no tapete felpudo que nos separava do chão frio da sala de estar, e foi atender a porta. Eu, já um pouco bêbada e cheia de curiosidade, espiei através da janela a bela figura de um homem que cruzou o portão e tomou minha amiga nos braços, beijando-a com sofreguidão. Tive um acesso de raiva por não ter sido notificada acerca do novo namorado (ou o que quer que fosse o tal rapaz). Controlada, ouvi Caterina dizer que estava com uma amiga. O homem não pareceu acreditar nela, e tomou-lhe a frente andando decidido na direção da porta. Abriu-a e pareceu surpreso ao ver-me de pé ao lado da janela. Não sei se para certificar-se de que estávamos apenas nós duas na casa ou se por vontade, disse a Caterina que permaneceria um pouco mais. Não pediu qualquer licença para isso e não esperou que ela concordasse. Sentou-se no tapete e pegou a garrafa de vinho que repousava no chão. Tomou uma das taças e a encheu, bebendo todo o conteúdo em seguida. Senti certo asco pela maneira rude como ele a tratava, mas seu rosto era tão bonito que não pude manter-me chateada por muito tempo.
Abrimos outra garrafa e perguntei a razão que levara Caterina a ocultar o namorado. O rapaz, erguendo a taça, sorveu mais um pouco do vinho e respondeu, como que medindo as palavras de forma que parecesse o mais calhorda possível, que não eram namorados. Olhei para minha amiga, esperando ver nela uma expressão qualquer de dor, mas ela sorriu. Caterina estava já muito bêbada, e atribuí a isso sua reação tranqüila. Não poderia acreditar que ela se deixasse conduzir por um homem daquela forma, sobretudo quando não há entre eles qualquer compromisso.
Passado o desconforto inicial, continuamos bebendo e eu já estava desenvolvendo certa simpatia pelo tal rapaz que, segundo disse ele mesmo ao estender-me a mão, chamava-se Artur. Era divertido de uma forma sádica, mas ainda assim sabia fazer rir. Caterina oferecia a ele um riso tão solto que me deixou enciumada. Não demorou muito e até que ela adormecesse sobre o peito de Arthur. Ele a ergueu, pousando sobre ela um olhar tão enternecido que fez-me ter certeza de que aquele homem a amava. Tomou-a nos braços e a levou até o quarto de paredes azuis que conheço tão bem. Ele parecia tão habituado à casa quanto eu. Pousou Caterina sobre os lençóis brancos e macios que cobriam sua cama e começou a despi-la. Depois abriu o armário e, com alguma dificuldade, encontrou uma roupa que aparentemente julgou adequada e vestiu o corpinho pequeno e amolecido pela bebida. Eu não tive coragem de intervir em momento algum; observei todo o processo encostada à porta. Quando terminou de vesti-la, tornou a erguê-la nos braços e pediu-me que puxasse os lençóis. Deitou-a novamente na cama e a cobriu. Feito isso, virou-se e saiu do quarto, levando-me com ele.
Arthur não parecia homem dos que pede licença. Impunha-se de tal forma que nem mesmo eu soube ir contra qualquer coisa que ele fizesse. Continuamos a beber e ele fez milhares de perguntas enquanto olhava-me com uma curiosidade mal disfarçada.
Às três da manhã nos retiramos: eu para o quarto de hóspedes, ele para o quarto de Caterina. Causou-me certo espanto ouvi-lo dizer onde eu deveria dormir. Ele agia como se estivesse em sua própria casa, e chegou a levar-me até o quarto e abrir a porta para que eu entrasse. Entrei, deitei-me e não pensei muito a respeito; o sono me venceu rapidamente.
Ricardo
Capítulo IX
Toda a saudade que não sentira durante os anos todos em que estive sozinho tomou-me de assalto. Observei com fervorosa impaciência a paisagem que se revelava através da janela. O coração palpitava descompassado, como se apenas agora tivesse dado conta de sua obrigação. O sol queimava-me o rosto num esforço inútil para que eu cerrasse as cortinas; não o faria.
Súbito senti como se toda a minha vida se tivesse arrastado apenas para que eu a revisse.
Horas depois estava em frente à casa que há três anos não visitava. Fui recebido à porta por uma criada que falou acerca do estado de saúde de minha tia, e rogou-me que fizesse Caterina comer. Chamava-se Antônia; era uma mulher morena, de meia idade, em cujos braços e olhos conservava a força juvenil dos que não sabem envelhecer.
-Deixe por minha conta. - disse, e apanhei uma maçã.
Segui para a varanda, onde encontrei uma Caterina completamente absorta. Escrevia com uma concentração de monge, e não atrevi aproximar-me enquanto não fechou o caderno, lançando o olhar confuso na direção do jardim. Os últimos raios de sol da tarde refletiram-se na umidade pura da sua tristeza. Contemplei ainda por alguns instantes; estava ainda mais bela que quando a deixei. Finalmente interrompi-lhe o sonho:
- Ajuda-me a comer? - perguntei sorrindo.
Caterina levantou-se de um salto. Envolveu-me o pescoço com os bracinhos brancos e beijou-me a face numa alegria genuína. Tomou a maçã, mordeu-a e devolveu-me. Mordi o fruto, que começava a desprender o suco lamentoso dos vegetais que choram seu fim, e o devolvi à Caterina.
Repetimos os mesmos movimentos até que, acabada a maçã, fomos acomodar minhas malas no quarto de hóspedes.
Capítulo X
Nos dias que se seguiram Caterina voltou a alimentar-se. Acordava-me todas as manhãs saltando sobre mim, que ressonava indefeso na cama de casal. Não pude chatear-me uma vez sequer. Ao contrário; ansiava pela chegada de Caterina ao quarto, por sentir-lhe o corpo pesando sobre o meu, pelos cabelos perfumados espalhando-se sobre o meu rosto. Ansiava, sobretudo, pelo beijo na testa e pelo "bom dia" pronunciado por uma voz ainda rouca pelo sono e que trazia consigo o hálito fresco e mentolado dos dentes recém-escovados.
Acordava sempre com o membro em ereção, o que era natural para um homem da minha idade, mas Caterina não parecia notar. Apesar da pouca diferença - era apenas dois anos mais velho que minha prima - eu era certamente mais experimentado nas artes do amor. A inocência com que Caterina deixava-se envolver por meus braços, num abraço que trazia seus seios de encontro ao meu peito nu, excitava-me ainda mais. Tinha que fazê-la sair do quarto antes de livrar-me das cobertas, para meter-me num banho longo onde me ocupava mais da lembrança de sua respiração em meu pescoço que do ato de lavar-me.
Capítulo XI
Passaram-se dois dias até que descobrisse que minha prima estava namorando. Era cedo, e Caterina arrumava-se para a faculdade. A campainha soou e, como Antônia ainda não tivesse chegado, atendi à porta. Fora interrompido enquanto me vestia, de forma que abri o portão trajando apenas um jeans. A figura que surgiu sob meus olhos retratava o meu oposto: alto, ombros largos, olhos de um azul acinzentado e frio, cabelos loiros e curtos.
O homem à minha frente demorou-se um pouco observando meu físico demasiadamente magro e os cabelos ainda úmidos que já me tocavam os ombros antes de perguntar, ríspido, onde estava Caterina. Estendi-lhe a mão:
- Sou Ricardo. Que quer da minha prima?
- Arthur. - replicou, apertando com vigor a mão estendida. - Vim levar Caterina à faculdade.
- Imagino que ela conheça o caminho. Já está no quinto período.
Disse isso com desdém, esperando livrar-me do incômodo da entrevista. O tom de desafio com que foi proferida a resposta à minha provocação exasperou-me:
- Sei disso. Somos namorados.
Em face do inesperado me vi obrigado a dizer-lhe que esperasse um instante e, fechando o portão, fui chamar Caterina.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Postado por Érika C. às 05:44 1 trovoadas.
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Trechos de uma inspiração inacabada IV
E quando se quer, nem que uma vez apenas, estar errada? Eu quero.
Meu pessimismo me leva ao muro da certeza tácita. O seu silêncio imperdoável diz-me todas as coisas que não suporto ouvir.
Estou cansada de viver nas sombras do amor que só eu soube sentir. Estou cansada de respirar entre os soluços, de sufocar o seu nome e macular-me a carne. Preciso aprender a desfazer esse nó que se instalou no meu peito.
Postado por Érika C. às 05:42 0 trovoadas.
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Trechos de uma inspiração inacabada III
E ela era tão cheia de sentimento que, às vezes, parecia que nenhuma palavra seria dita sem levar consigo uma lágrima, uma gota de sangue, um suspiro.
[...]
Observava-a erguer os olhinhos castanhos, tão cheios de desejo, e esboçar aquele sorriso engraçado. Ela era uma menina engraçada, acho. Tinha um jeitinho todo seu de andar trocando as pernas desengonçadamente, um olhar pasmado e uma boca que se movia tão lentamente que parecia que ela tentava sentir a maciez dos próprios lábios ao tocarem um no outro, enquanto articulava palavras estranhas: quiçá, outrora, amiúde, crepúsculo.
Postado por Érika C. às 05:39 0 trovoadas.
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Trechos de uma inspiração inacabada II
E é o medo. É a hora serena e derradeira onde eu pouso os olhos em você.
Eu não sei não temer a vida quando me ocupo da sua lembrança.
Postado por Érika C. às 05:09 0 trovoadas.
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Trechos de uma inspiração inacabada I
É incrível como os olhos dela me entristecem. Quando me olha por sobre o ombro e sorri, antes de partir para longe dos meus braços. Quando cerra os olhos, como que me dando um momento para respirar, e eu tenho a certeza de que ela me ama. Poderei entender porque não a retenho? Mas acho tão belo vê-la partir, triste, desejosa do meu toque. Ela quase adivinha o meu amor, e vejo a dúvida faiscante em seus olhos. Se perguntasse, eu mentiria.
Postado por Érika C. às 05:08 0 trovoadas.
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Dulcíssima imagem das mãos que tateiam o nada.
Postado por Érika C. às 03:04 0 trovoadas.
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Desperta.
Um pulsar violento faz-me desperta na noite alta; é meu peito.
Que é que me faz encabeçar tudo com negativas?
O seu rosto, o meu rosto, nada continua igual. As lembranças perdidas na névoa, as imagens que remedam alegria, tudo passou... Passou?
Há ainda o eterno ecoar do seu riso. Ou seria apenas a minha forma de manter-lhe aqui, ferindo-me a carne, riscando-me o corpo, devorando-me a alma?
É tudo confuso, as vísceras escrevem em sangue a essência do meu desespero. Não há salvação para o peito que se precipita. Parece-me, às vezes, que nasci para o desvario.
Calar, se fosse possível. Se fosse.
Não é.
Postado por Érika C. às 02:52 1 trovoadas.
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Um início.
Indiferentes são os meios que lhe trouxeram às minhas palavras, mas é necessário dizer que aqui não encontrará nada além de suspiros desordenados, sentimentos rascunhados e desabafos que vêm em cascatas.
Seja bem-vindo às tempestades da minha vida. Abra seu guarda-chuva.
Postado por Érika C. às 02:20 1 trovoadas.
